A criminalização da pobreza no Brasil está enraizada em nossa formação cultural


A criminalização da pobreza no Brasil é um processo histórico que se enraizou ideologicamente na cultura da sociedade brasileira desde o Brasil colônia. Ser pobre neste país além de ter de enfrentar tantas dificuldades para se viver com um mínimo de dignidade. Ainda tem que carregar o estigma de criminoso, de vagabundo… De ser representado de forma temerosa e até odiada pela elite brasileira.

Instalou-se na sociedade a idéia de que moradores de áreas periféricas como: morros e favelas, são criminosos. Alvos de estigmatização, essas pessoas carregam com elas a marca de um crime, que é o simples crime de residirem num local que é tido como um antro de criminosos e ociosos. Suas formas de se expressar, de se vestir criam formas de representação em que a outra parcela da sociedade que vive do outro lado da balança, não aceita.

Por ¨ fugir ao padrão ¨, apresenta-se como uma ameaça ao esquema classificatório de nossa estrutura social. Por não representar os valores ideais do padrão social, passa a ser vista como algo a ser evitado, […] com esse rótulo genérico é atribuído aos moradores indistintamente, todos eles são perigosos […] Ser morador da favela é trazer a ¨ marca do perigo ¨, é ter uma identidade social pautada pela idéia de pobreza, miséria, crianças na rua, família desagregada, criminalidade, delinqüência.(ZALUAR, 2006, p. 306, 307)

O que significa viver ao avesso da civilização, sendo temidos e até odiados, por simplesmente não apresentarem determinadas normas morais que são esperadas pela elite dominante. Ilustrativos desse processo são as palavras do padre José de Anchieta (1534-1597), célebre missionário jesuíta que veio da Europa para participar da evangelização dos povos indigenas: “Pouco fruto pode se obter deles se a força do braço secular não acudir para domá-los. Para esse gênero de gente não há melhor pregação do que a espada e a vara de ferro.” (GILBERTO COTRIM, 1994, p. 33).

Essa frase sintetiza claramente que a criminalização é um processo histórico que está enraizado ideologicamente desde a invasão das Américas, quando os europeus conquistaram brutalmente o continente e trouxeram um conjunto de idéias racistas de superioridade cultural, estigmatizando os povos conquistados com representações de gente promiscua e sem alma. Da mesma forma ocorreu com os povos africanos que foram escravizados para servirem como mão-de-obra aos exploradores europeus.

A formação da nação brasileira constituiu-se exatamente da mistura destes três povos, índios, africanos e europeus. No entanto, nunca houve uma democracia racial. Os negros e os índios sempre foram tidos como gente bestial, e as miscigenações raciais não aconteceram de maneira pacífica, segundo Cotrim “Levando as implicações da miscigenação longe demais, alguns autores, como Gilberto Freyre (autor do clássico, Casa Grande e Senzala), concluíram que o Brasil foi palco de uma verdadeira democracia racial. ¨ (GILBERTO COUTRIM, 1994, p. 66) O que é falso! Índias e negras foram vítimas de estupro dos europeus. E, infelizmente foi dessa forma que se constituiu a nação brasileira, de modo violento, excludente e discriminatório. Formando uma nação dividida, de um lado, aquela tida como civilizada, e de outro, aquela perigosa com tendências ao crime.

Quer queiramos, quer não, está separação já está embutida nos rituais de dominação de classe que incluem um rigoroso afastamento do local de moradia dos pobres. […] Duplamente excluídos por serem ¨ outros ¨ e por serem ¨ incultos ¨ e ¨ perigosos ¨ , os pobres urbanos vivem neste olhar etnocêntrico e homogeneizador […] ¨ (ZALUAR, 1984, p.12)

Nossa cultura traz essa ideologia de representação dos pobres de forma até invisível, se não aguçarmos nossa percepção. Somos capazes de reproduzi-las sem perceber. Por exemplo: um dos mais importantes romances da literatura brasileira O Cortiço de Aluísio de Azevedo, um livro que conta a história de moradores de um cortiço no Rio de Janeiro, que retrata o modo de vida dessas pessoas pondo em pauta o problema social da formação dos cortiços. Infelizmente, Azevedo deixa a desejar, pois seu romance faz uma representação dos moradores de cortiço como: preguiçosos, futriqueiros, gatunos, malandros, desagregados… Enquanto o seu personagem principal, um homem branco, trabalhador, pai de família e português, é símbolo de retidão. Até mesmo quando ele se desvia, a culpa é de uma negra, sambista que gosta de vida fácil.

Resumindo, é inevitável dizer que vivemos numa sociedade com dois pólos sociais, onde as representações de uma delas são criminalizantes.

E o mais conflitando em tudo isso, é que está ideia está enraizada em nossa cultura, em nossa própria identidade de povo brasileiro, somos frutos de um passado brutal que gerou uma forma de representação excludente e classificatória.

E isso foi pensado?

Hoje temos a mídia que reforça ainda mais está estigmatização.

É tempo de refletirmos sobre o que somos e o que queremos ser. Pois a outra parcela da sociedade já decidiu! E colocou todos os seus aparatos de controle para nos oprimir!

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4 Comentários

  1. Muito bacana esse texto! Tava lendo sobre esse negócio da falácia de democracia racial, do branqueamento que rola por trás disso pq tive q escrever um texto pra minha aula e escolhi comparar a trajetória do negro no Brasil e nos EUA…é triste, mas como vc disse, a ideia de miscigenação “paz e amor” tá muito entrelaçada a nossa própria identidade…então como mudar nossa percepção e agir de maneira concreta para quebrar isso? Mas ao mesmo tempo acho que essa ideia de mistura na nossa identidade tem seu lado bom, e não pode ser total descartada…

  2. Opa, falou e disse! haha Concordo total… tava lendo algo sobre essa coisa de origem e identidade… que a miscigenação e essa falta de ligação com a origem tornaria nossa identidade mais difusa… Mas vc acha que a identidade do brasileiro é meio “superficial”? Tipo, sei lá, se vc comparar patriotismos vc acha q o brasileiro é menos fortalecido na sua identidade? (Sei que tô saindo do foco aqui haha) E voltando, outra coisa que fiquei curiosa, o que vc proporia pra ajudar nessa descriminalização da pobreza? Falando mais sobre racismo e nossa identidade negra, acho super legal e necessário a inclusão da história de nossas origens africanas nas escolas…o caminho seria por aí? O que mais se pode fazer?

  3. Hummm, tendi, bacana!! Sobre o racismo, não quis dizer q estudar a cultura africana esteja diretamente ligado a isso, mas só acho ajuda a entendermos nossa raíz mais a fundo, pq enquanto de uma forma geral convivemos bem com nossas origens ao mesmo tempo aceitamos esse racismo “leve”, mas mascarado né. Acho que até criminalizar o pobre, que muitas vezes tem sua origem africana fisicamente mais visível (já que pra gente raça tá mais ligado à cor) acaba levando essa coisa a cair em racismo tb. Aquele negócio de ver um cara negro na calçada e colocar a mão na bolsa e coisas do tipo…
    Mas muito bacana conseguir ver isso tudo, os problemas, e ainda poder trabalhá-los dentro da nossa realidade e das construções bacanas de identidade e cultura que a gente formou. Bacana isso dos nomes indígenas! Bom, o negócio agora é agir, e como vc disse, a mídia é super importante. Bom, a conclusão é q isso anima a gente a agir já que a gente tá dentro dessa esfera, com os nossos grandes passos de formiguinha…hehe aahhh, é vc Gui? Não né, se não já teria falado! haha

  4. Opa, muito boa! comentar é sempre bom pra expandir nossa percepção, se você lê e responde a coisa se expande e vc entende melhor o q a pessoa qria dizer… hehe Pô, eu sei quem é vc, vc faz a rádio com o Gui e o Márcio né?! Sempre olho as coisas que o Márcio posta, bom, boa sorte aí na rádio!


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