“O Banco Vaticano, um paraíso fiscal”


Entrevista com Gianluigi Nuzzi, jornalista e autor do livro “Vaticano S. A.”
O Instituto de Obras Religiosas, o “Banco Vaticano” sempre manteve o sigilo de suas operações bancárias. “Vaticano S.A.” revela uma rede de contas secretas e comissões a políticos.
O Instituto de Obras Religiosas (IOR), o chamado Banco Vaticano, está no centro de uma investigação judicial conduzida por um tribunal de Roma. Em outubro de 2010, uma decisão ordenou a apreensão de 23 milhões de euros, considerando que o IOR havia violado as obrigações das normas anti-lavagem de dinheiro em operações bancárias realizadas com o banco alemão JP Morgan Frankfurt e outro banco italiano. De acordo com a sentença, o IOR não comunicou “para quem pretendia realizar as operações, nem a natureza e o propósito delas”.
Embora alguns meses depois desta sentença o Vaticano tenha modificado suas regras fiscais para tentar entrar na lista da OCDE de países que respeitem as normas internacionais contra a lavagem de dinheiro, o IOR sempre vem operando no mais absoluto sigilo e seu histórico de acusações é extenso.
Envolvidos no escândalo do Banco Ambrosiano, o IOR continua aproveitando os privilégios dado a seu status de banco papal para movimentar dinheiro pelo mundo sem qualquer autoridade por trás das paredes do Vaticano para pedir contas, agindo como um verdadeiro paraíso fiscal na prática.
O livro Vaticano S.A., do jornalista Gianluigi Nuzzi, permite conhecer os negócios sombrios da Santa Sé, graças à documentação recolhida por um dos seus responsáveis, monsenhor Renato Dardozzi. Conhecedor em primeira mão dos aspectos mais reservados do IOR até o final dos anos 90, Dardozzi quis que os documentos se tornassem públicos após sua morte. Em suas páginas aparecem contas milionárias de fundações caritativas inexistentes, movimentos de capitais que ninguém controla e ligações com a política e até mesmo a máfia.
Diagonal > Que ações do IOR vêm à luz em seu livro?
Gianluigi Nuzzi < Se tornam públicos pela primeira vez documentos que sempre permaneceram secretos e revelam todas as operações realizadas depois de Marcinkus (presidente do IOR de 1971-1989). Revela, por exemplo, a existência de todo um sistema de contas secretas em nome de supostas fundações beneficentes de luta contra a leucemia ou a pobreza, utilizadas na verdade para proteger os verdadeiros titulares. Estas contas foram parar, por exemplo, parte das enormes comissões e subornos pagos por empresas italianas a inúmeros políticos investigados por juízes de Mani Pulite (Mãos Limpas).
Diagonal > Alguma conta foi usada por políticos importantes?
Gianluigi < Sim, por exemplo, a Fundação Spellman poderia ser na realidade uma conta utilizada por Giulio Andreotti, o então primeiro-ministro da Itália.
Diagonal > E para lavar dinheiro sujo?
Gianluigi < Isso não faz parte da documentação do arquivo de Dardozzi. Estas são declarações de Massimo Ciancimino, filho de Vito Ciancimino, o prefeito mafioso de Palermo, que diz em uma entrevista que nos anos 70 e 80 seu pai depositava no Instituto para Obras Religiosas parte do dinheiro que circulava entre mafiosos e políticos – “Ratzinger está tentando introduzir sistemas de controle diante o risco de que incluam o banco na lista de paraísos fiscais”.
Diagonal > O que faz com que o IOR se torne um banco ideal para passar despercebido?
Gianluigi < Sobretudo pelo fato de agirem em segredo absoluto. Não se sabe de quem é o dinheiro depositado lá, o patrimônio do banco é secreto. Goza de importantes isenções fiscais por ser um banco estrangeiro. Nestas condições não há dúvida de que é um banco muito tentador para quem quer discrição.
Diagonal > O papa Wojtyla conhecia os fatos denunciados no livro?
Gianluigi < Há provas documentais de que seus conselheiros mais próximos sabiam sobre a estrutura paralela que foi desenvolvida para lavar o dinheiro das comissões. Por exemplo, o então presidente do IOR, Angelo Caloia, em uma carta confidencial ao secretário do papa, Stanislaw Dzwisz se refere explicitamente a “investigações realizadas com completa reserva” das contas correntes secretas. O papa teve um comportamento muito prudente, sem prejudicar frontalmente o que estava acontecendo.
Diagonal > Qual foi a reação do Vaticano ao livro?
Gianluigi < Uma mudança, pelo menos sobre o papel, tem havido, porque existe o risco de que o banco se incluía na lista negra da OCDE. Ratzinger está tentando introduzir sistemas de controle nos fluxos financeiros. A coisa a se observar é quanto do prometido é de fato alcançado.
Diagonal > Se pode afirmar que o IOR tem atuado como um paraíso fiscal?
Gianluigi < Pela documentação disponível, podemos dizer que pelo menos até o final dos anos 90 funcionou como um verdadeiro paraíso fiscal.
Instituto de Obras Religiosas: O Benefício é Sagrado
O Instituto de Obras Religiosas nasceu em 1942 ao se tornar um verdadeiro banco que foi inicialmente chamado Comissão para as Obras Pias. A partir daí, nasceu um grande império financeiro, com investimentos em todo o mundo.
Sobre ele recaíram suspeitas de haver financiado operações armamentistas ou ter colaborado com o regime de Mussolini e com o Terceiro Reich. Os privilégios de que goza tem feito do banco a escolha para aqueles que queriam transferir capitais ao estrangeiro para fugir dos impostos. Conforme observado por Gianluigi Nuzzi no Vaticano S.A., o IOR “não se pode registrar; não é permitido interceptar os telefones; não se pode questionar seus empregados”.
Para saber algo sobre as operações do banco, continua Nuzzi, “os juízes do país interessado devem realizar rogatórias ao Estado da Cidade do Vaticano. O Estado do Vaticano é o único país europeu que não tem firmado qualquer acordo de assistência judicial mútua com outros países no continente”.
Fonte: Diagonal
agência de notícias anarquistas-ana
Festival de vida:
as borboletas se amando
no meio da estrada.
Humberto Del Maestro

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Em mais uma entrevista sem o menor apelo público (paga?), Jô Soares entrevistou nesta segunda o delegado geral da policia civil do Estado, Marcos Carneiro de Lima.

(É de se estranhar esta sequência de entrevistas com representantes do Estado.

Mês passado o governador Geraldo Alckmin esteve no sofá do apresentador)
O delegado chegou a surpreender por certas colocações, quando disse que muitas vezes o pobre é associado ao banditismo, que o Estado não se faz presente com educação, cultura e saúde nas periferias.

Talvez desnorteado, Jô Soares preferiu invocar o sistema anglo-saxão, que no seu entender seria melhor, com o município cuidando da segurança pública, já que o coitadinho do governador não teria como coordenar o setor em um estado como São Paulo.

No final da entrevista, sem a menor justificativa, o apresentador cita o “controle da mídia”, uma proposta que poderia ser implantada pelo governo federal, como uma forma de censura aos meios de comunicação democráticos, a favor da liberdade de empresa, como as Organizações Globo. “Esperamos que a presidente Dilma Roussef, que já esteve aqui, não aprove esta medida”, suplica ele.

Jô Soares não lembra de citar que a regulação de mídia acontece em todo o mundo, inclusive o venerado “anglo-saxão”, e impede, por exemplo, que políticos assumam o controle de tevês e rádios, e permite que grupos sociais prejudicados com informações falsas possam ter mecanismos para trazer a verdade à tona. Propostas como essas partiram não de um partido (aliás, interessa aos partidos deixarem as coisas como estão), e sim da sociedade civil em geral, na Conferência Nacional de Comunicação, de 2009. Desde então, nada mudou: os políticos continuam dominando as redes de tevê e rádio, o oligopólio da comunicação continua nas mãos de empresários, e restam poucas alternativas a entidades de bairro, organizações sociais e movimentos de luta em geral. Muitas vezes, a opção é a ilegalidade, por meio de rádios comunitárias, já que a legislação atual obriga que as associações entrem no jogo sujo político, e tomem um chá de cadeira de pelo menos 10 anos para ganhar uma concessão.

Por isso, senhor Jô Soares, a empresa que o emprega pode ser livre, mas a comunicação está longe disso!